Embu das Artes teve, em 2021, sua tradicional feira reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo. Mas a importância do município vai muito além desse patrimônio. Está presente em sua própria origem: o nome Embu, de raiz tupi, associado a M’Boy (ou Bohi), remete a significados relacionados a “cobra”, “serpente” ou ao contorno dos rios locais. A própria origem do nome revela uma relação histórica entre território, água, natureza e cultura.
Embu das Artes não pode ser compreendido apenas como destino turístico ou como a cidade da tradicional feira de artesanato. Seu território reúne saberes ancestrais, arte, cultura, biodiversidade e resistência. Como afirma seu hino: “Tens progresso, glória, natureza, tudo enfim”. Preservar esse patrimônio significa também proteger a natureza que sustenta a identidade e a qualidade de vida do município, especialmente diante da pressão do desmatamento e da ocupação urbana.
A ancestralidade indígena permanece presente mesmo em uma cidade inserida na dinâmica metropolitana. Essa perspectiva nos convida a refletir sobre a ideia de Ailton Krenak de que “o futuro é ancestral” e de que precisamos aprender a “pisar suavemente na terra”. A floresta não deve ser vista apenas como recurso a ser explorado, mas como um organismo vivo, com o qual estabelecemos uma relação de interdependência. Reconhecer essa relação também significa valorizar a história e a ancestralidade que constituem Embu das Artes.
As áreas de mata nativa do município sofreram forte pressão com a urbanização, a expansão imobiliária e a implantação de grandes vias, como o Rodoanel Mário Covas e a Rodovia Régis Bittencourt. Esse processo contribuiu para a degradação do solo, alterações nos cursos d’água, erosão e aumento da vulnerabilidade da população em áreas sem cobertura vegetal — impactos que também podem ser compreendidos pela perspectiva do racismo ambiental, quando os danos ambientais recaem de forma desigual sobre determinados territórios e populações.
A perda de vegetação representa também perda de patrimônio cultural e ambiental. Segundo levantamento divulgado pelo G1 em 2022, Embu das Artes foi o município que mais desmatou naquele período, com 14,29 hectares perdidos entre janeiro e outubro — área equivalente a mais de 17 campos de futebol. O dado chama ainda mais atenção por ocorrer apenas um ano após o reconhecimento da feira como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado.
A pressão da especulação imobiliária sobre áreas de preservação traz consequências que vão além da paisagem. A Mata Atlântica exerce papel fundamental na regulação do clima, na manutenção da umidade e dos ciclos da água. Sua vegetação contribui para a evapotranspiração e para a estabilidade dos ecossistemas, e sua perda afeta diretamente a fauna, a flora e a funga, além de alterar condições ambientais importantes para a população.
A história da Mata Atlântica também se confunde com a história do Brasil. Desde 1500, a exploração de seus recursos naturais provocou sucessivos ciclos de devastação. Em Embu, porém, a terra e a argila retiradas das margens dos rios também representam pertencimento e memória. Essa relação com o território contribuiu para a formação da tradição artística que tornou o município conhecido por seus escultores, ceramistas e artesãos.
O conhecimento sobre as plantas e seus usos também faz parte dessa herança. Espécies como pau-brasil, urucum e jabuticaba oferecem pigmentos, alimentos e referências que atravessam gerações. A arte, nesse sentido, também nasce da relação entre conhecimento, cultura e natureza.
Preservar Embu das Artes é preservar um território vivo. Espécies como embaúba (Cecropia pachystachya), palmeira-juçara (Euterpe edulis), jerivá (Syagrus romanzoffiana), ingá (Inga edulis) e araçá (Psidium cattleianum) integram uma rede ecológica que oferece alimento e abrigo para espécies da fauna da Mata Atlântica, como o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), o bugio-ruivo (Alouatta guariba), o quati (Nasua nasua) e o gato-maracajá (Leopardus wiedii). Aves, anfíbios e répteis também dependem da integridade das florestas e dos corpos d’água.
As áreas verdes de Embu das Artes contribuem para a proteção do Rio Embu-Mirim, do Rio Cotia, de córregos e nascentes distribuídos pelo território. A APA Embu Verde ocupa cerca de 15,7 km² e constitui importante área de proteção ambiental. As nascentes do município também contribuem para a Bacia do Alto Tietê, evidenciando que a preservação de Embu ultrapassa seus limites territoriais.
Preservar Embu das Artes é proteger simultaneamente sua biodiversidade, seus recursos hídricos, sua história, sua cultura e a qualidade de vida de sua população. É reconhecer que natureza e sociedade não são elementos separados, mas partes de um mesmo território.
Na visão da SEAE – Sociedade Ecológica Amigos de Embu, preservar Embu das Artes é cuidar de um patrimônio que pertence a todos: a natureza, a história e a vida que se desenvolve nesse território. É reconhecer que a conservação ambiental não é um obstáculo ao desenvolvimento, mas uma condição para que ele aconteça de forma sustentável e inclusiva.
Cuidar de Embu é cuidar de sua memória e de seu futuro — mantendo viva a relação entre natureza, história, cultura e vida.
Artigo por Miriã Moraes e Cynthia Jobim



